Capítulo 1 : À primeira vista

Assim, eu não me arrependo de sair da Flórida, não me arrependo de ter que sair da minha amada casa, pois era por um bom motivo: esquecer um pouco a morte do meu pai e se desfazer das coisas dele de uma vez por todas, para evitar mais sofrimento.

 Primeiro dia em uma nova cidade não é nada que possamos chamar de convidativo para uma pessoa como eu, mas Gatlin tinha um charme tão único que me convidou a gostar mais da cidadezinha. Diferente da Flórida, Gatlin era muito pequena, era provável que minha mãe já conhecesse metade da cidade – pois já havíamos morado ali antes.

 Nossa “nova–antiga” casa era muito charmosa, aconchegante e discreta, pena que eu não me lembrava de nenhum momento meu ali. Era como se eu nunca tivesse estado ali antes, era como se aquilo tudo fosse novo para mim.  As lembranças que eu tinha dali eram turvas e doía lembrar-me delas, era como se quisessem se afastar da minha cabeça me matando aos poucos.

 A única coisa realmente nova era a escola – já que a antiga além de ser uma escola primária, havia sido demolida há alguns anos pela falta de estrutura -, que ótimo. “Amigos” novos nem sempre são tão bons, mas os cidadãos de Gatlin eram muito receptivos, pelo menos em relação a mim.

- Oi, eu sou Eric. Você é Janet, certo?

- Jane.  Prazer, Eric.

-Se você quiser uma companhia para o almoço estou à disposição.

- Tudo bem. – respondi com um sorriso envergonhado.

-Tenho que ir, eu sou do jornal e tenho muitos “afazeres”- ele fez um som que me soou como um riso -, até o almoço.

 Depois mais e mais pessoas vieram se apresentar a mim, era tudo muito estranho, todos ao meu redor me olhavam, sussurravam ao ouvido de outras pessoas, isso me irritava, mais ia passar, eu era apenas a aluna nova.

Quando entrei na classe, todos me olhavam. Eu fiquei vermelha ao ver todos os olhares voltados para mim, todos os risinhos e sussurros. Mas uma pessoa me intrigou muito, era um rapaz rústico, não parecia vir dessa época, era todo rígido com a postura e não desviava um olhar sequer do professor, era o tipo de rapaz com que eu não me daria muito bem.

 Eu achava insuportável a ideia de sentar ao lado dele, mas era o único lugar vago na classe. Eu quase gritei de raiva, a única pessoa que eu não havia gostado ali era minha dupla agora, era só o que faltava para piorar o meu dia. Ele, pelo visto, teve a mesma impressão insuportável sobre mim, ele viu que não se daria nada bem comigo.

Nem nos apresentamos, será que eu era tão ruim assim aparentemente? Não cruzamos um olhar sequer, parecíamos duas crianças rabugentas. 

Quando me sentei à mesa onde estava Eric conheci outras pessoas - também muito receptivas como ele -, Matthew, Tanya e Kate. Eu me senti quase feliz com aquela cena de “amizade” entre nós, pareceu fugir um sorriso na minha boca, um brilho nos meus olhos estampando a minha felicidade, até que um estúpido homem esbarra a sua bandeja em mim, derrubando todo o seu almoço sob a minha roupa. Já com muita raiva, achando que não podia piorar o meu dia, vi que o estúpido homem era o diretor da escola.

Ele me levou para a sala dele e disse que tinha outras roupas guardadas, caso acontecesse uma coisa dessas com os alunos. Eu fiquei assustada. Que escola normal guardaria roupas reservas do tamanho certo para a nova aluna? Eu deixei para lá, talvez eu estivesse ficando louca, e era o que parecia.

No outro dia, Alec – esse era o nome do garoto que fazia dupla comigo na classe, eu descobri por Kate, depois de uma conversa sobre ele -, se apresentou para mim:

- Oi, eu sou Alec. Desculpa não me apresentar ontem, eu sou muito tímido – ele riu-. Você é Janet, certo?

- Prazer, Alec. E a propósito, me chame de Jane.

- Ok, Jane – ele riu vergonhosamente.

- Então, você veio da Flórida, não é?

- Sim… e tenho muitas saudades de lá.

Ele riu:

- Se você gosta tanto da Flórida, porque se mudou para uma cidade tão diferente?

- Porque meu pai faleceu há alguns meses, e eu e minha mãe resolvemos nos mudar para evitar as lembranças dele.

- Desculpa… eu… Eu sinto muito - ele corou.

- Por nada, sei que não foi sua intenção me lembrar dele, muito menos me magoar.

Ele sorriu, um sorriso curto, sem muita felicidade.

- Você está gostando de morar aqui?

- Eu já morei aqui, mas particularmente, não gosto muito. Muita chuva, pouca gente, não me agrada muito.

- Espero que você aprenda a gostar, já que acabou de se mudar, é realmente difícil gostar logo de cara, depois se acostuma, assim como eu – ele sorriu.

O sinal tocou e fomos para o almoço, ele se sentou em uma mesa sozinho, eu fiquei com pena e decidi me sentar com ele:

- Posso me sentar?

- Claro, fique a vontade!

Ele ficou feliz - aparentemente - em ter uma companhia. Eu também fiquei feliz por estar com ele.

1 year ago on 21 July 2011 @ 9:21am 1 note
  1. oenigmadosolhos posted this