Era sexta-feira – se tornou um dos meus piores dias depois que meu pai faleceu, ele adorava sextas-feiras, ele sempre saía conosco para passearmos no parque, é o dia que eu mais me lembro dele -, não sei por que sempre aconteciam as piores coisas comigo na sexta-feira. Como era sexta-feira, meu dia de azar, eu simplesmente derrubei meu café da manhã na minha roupa, tive que subir pra trocá-la. Esse episódio de “roupa-suja-de-ovos-com-bacon” me atrasou tanto que fui pra escola com fome. “Ótimo” – pensei sarcasticamente.
Eu estava nervosa, ainda tinha a intenção de questionar o Alec sobre a noite passada. Saí de casa ensaiando como falar. O frio consumia minhas mãos, elas pareciam estar congelando, eu acho que essa sempre foi uma das razões por eu odiar inverno. Com o frio e o vento forte batendo em meu rosto, eu percebi que o caminho parecia estar mais longo do que da última vez, ou então era somente eu que estava andando mais devagar do que o normal. Eu estava atrasada exatamente dois minutos, tentei andar mais rápido. Afinal de contas, não queria perder um segundo sequer, precisava falar com Alec antes de entrar na classe, depois perderia a coragem.
Parei na calçada em frente à escola, olhei para todos os lados esperando que ele estivesse por ali, eu tinha mais coragem se não estivessem todos nos encarando, eu com certeza teria uma reação um pouco assustadora e barulhenta aparentemente anormal para qualquer pessoa, independentemente da resposta de Alec à minha pergunta. Como vi que ele não estava ali, atravessei até o outro lado e entrei. Procurei-o pelos corredores, e nada de Alec ali também. Fiquei preocupada, faltavam alguns minutos para o sinal tocar e não o encontrava em lugar algum.
Fique por alguns segundos, com medo de que ele não tivesse vindo à escola, mas me lembrei de que havia um lugar em que eu não o procurara, e nem podia, muito menos deveria ir procurá-lo lá, era no vestiário onde ele talvez estivesse. Talvez estivesse lá, ou talvez não tivesse vindo à escola, como eu temia.
Como eu previ, ele não tinha vindo à escola. Segurei a minha raiva. Depois de algumas horas fingindo prestar atenção sobre o que o professor dizia sobre “as fases da mitose da cebola”, eu pensei, e poderia ter certeza, de que ele escondia alguma coisa. Como eu imaginei, ele não iria á minha casa no final de semana, pensamento cumprido. Ele não me visitou, e minha preocupação aumentou muito: “O que ele teria a esconder, para chegar ao ponto de não ir à escola – já que não era de faltar, por ser muito estudioso, não perdia uma explicação na aula -, e nem de vir me visitar, o que ele faz quase todos os dias?” Alguma coisa me preocupava, talvez outra coisa também o estivesse preocupando, uma coisa que ele não queria me contar, por isso estivesse fugindo, talvez ele soubesse que eu iria interrogá-lo, ele me conhece tão bem, talvez tivesse pressuposto isso.
Em todo o final de semana ele não atendia as minhas ligações.
- “O número chamado encontra-se indisponível ou…”.
- “… Ou está no inferno” – continuei. Interrompendo a gravação.
Novamente tentei ligar:
- “O número chamado encontra-se indisponível ou fora da área de cobertura…”.
- Eu já entendi, little bitch. - interrompi a gravação novamente, dessa vez irritada.
Agora, era esperar até segunda-feira e ver o que aconteceria.
Na segunda, eu estava ansiosa para vê-lo, para interrogá-lo, e para vê-lo novamente, a saudade estava dando um nó no meu estômago, por isso não tomei meu café-da-manhã novamente. Já esperava ouvir a minha mãe tagarelar “o quanto é importante tomar o café da manhã…, é a refeição mais importante do dia…”, e todas aquelas coisas que só a mães sabem explicar.
Saí correndo de casa, antes que minha mãe me visse e me gritasse para voltar e tomar o café. Cheguei ofegante na calçada da escola, eu já estava atrasada. Não tive tempo para procurar Alec nos corredores, com certeza ele estaria na classe, sentado, e quando eu chegasse ele olharia pra mim e abaixaria a cabeça, porque leria nos meus olhos o quão raivosa eu estava por ele não ter se comunicado. Mas depois de dois a três segundos ele colocaria meu sorriso torto de desculpas favorito, porque leria novamente nos meus olhos o quão aliviada e com saudades eu estava.
Exatamente como eu previ aconteceu, depois de três segundos eu não parava de olhar para aquele sorriso encantador, até o professor chamar a minha atenção:
- Srta. Rathbone? Ainda está ai? A aula vai começar, sente-se.
Eu corei. Morri de vergonha, o professor nunca antes havia chamado a minha atenção, agora por uma coisa tão boba, ele quase achou que eu estava debochando dele, ficando parada ali como uma tonta. Que atitude a minha. Também… Não era pra menos, o sorriso de Alec era o mais lindo de todos.
Desculpei-me ao sr. Lockwood pela minha falta de atenção. Ele entendeu e disse que pela manhã até ele próprio tem uns momentos “desligados”. Eu me sentei, olhei para Alec e dei uma risada baixa, sacudindo a cabeça. Ele riu junto comigo, e me deu um soco fraco no braço, isso com certeza significava que era para prestarmos atenção antes que o sr. Lockwood chamasse nossa atenção, a minha novamente. Passamos a aula inteira com as mãos entrelaçadas, escondendo-as para que ninguém percebesse. Eu ainda estava aflita, e ele percebeu a minha aflição, ele me olhou tentando entender o que se passava. No mesmo segundo, o sinal para o intervalo tocou, eu disse que estaria o esperando no pátio.
Chegamos lá quase ao mesmo tempo. Ele já quis saber o que acontecia comigo:
- O que houve meu amor?
- Eu não aguento mais, eu preciso saber o que você é… como… Como pulou da janela daquela maneira.
- Aqui não é lugar para falarmos disso, no final da aula vamos a um lugar um pouco mais longe da cidade, um lugar mais particular, ok?
- Ok! Só espero que tenha uma boa resposta pra isso – eu olhei para ele, quase rindo, e não aguentei… soltei uma gargalhada, e o abracei.
Ele riu também.
Ali, com ele, eu não tinha mais certeza de nada, só de que tudo viria à tona em questão de duas horas, mas eu não me importava. Só o que importava era que ele estava bem, e eu estava com ele. Eu pretendia soltá-lo, olhar dentro de seus olhos e ter certeza de que aquilo não era um sonho, mas eu não consegui. Quando eu o abraçava, ou até mesmo o beijava, todos os meus problemas sumiam, todas as preocupações e a raiva. Ele era meu ponto de paz, eu sentia que com ele eu estava segura, para o resto da vida, e com certeza, sempre estaria, se estivesse exatamente com ele, somente com ele.